Quando pensamos no ano de 1969 nos EUA, nossa mente colonizada, acostumada a operar por clichês que o brainwash pró-yankee nos impôs, vamos logo evocando o Festival de Woodstock e o pouso dos astronautas estadunidenses na Lua, como se estes tivessem sido indubitalvemente os eventos definidores de época (e tudo o mais que vá pro inferno – ou melhor, pro esquecimento…).
Protestando contra esta narrativa hegemônica, o filme Summer of Soul traz a público um robusto tributo ao Harlem Cultural Festival, sustentando a ousada tese de que uma autêntica revolução cultural estava ali em plena ebulição, fervendo sob o sol de verão.
Sem grana para bancar um palco de estrutura faraônica, com iluminação e tudo, a produção do festival preferiu construir o palco de frente para o Sol e realizar todas as atividades à luz do dia, congregando alguns dos maiores nomes do blues, do jazz, do soul, do r&b e da música latina (sobretudo porto-riquenha e afro-cubana).
Na platéia, estima-se que o festival reuniu cerca de 300.000 pessoas durante 6 fins-de-semana, celebrando estrondosamente a cultura e a vida coletiva da população afro-americana que então lamentava uma série de assassinatos de seus líderes (como Martin Luther King, Malcolm X e Stokely). A segurança do evento não foi feita pelos porcos, mas sim pelos Panteras Negras. O jovem e incendiário Fred Hampton ainda vivia (mas seria assassinado no fim daquele ano… mais uma bala feroz explodindo os sonhos de “progresso” do Summer of Soul…).
Ao assistir ao documentário dirigido por Questlove (músico da banda The Roots), aclamado pelo The Guardian como “one of the best concert movies of all time”, compreendemos algo sobre a importância do registro audiovisual para a História (com H maiúsculo, por razões que logo apresentarei): por 50 anos, estas imagens ficaram engavetadas, escondidas do olhar público, e o subtítulo, dando uma marota piscada de olhos para Gil Scott-Heron, pois a revolução não podia ser televisionada.
A menção ao Abutre e sua mais célebre canção, “The Revolution Will Not Be Televised”, é uma maneira do filme colocar em questão o que alguns chamariam hoje de apropriação cultural, mas que Gil Scott-Heron, pouco afeito a eufemismos, denominava cultural rape (“estupro cultural”): como aquele que fizeram, por exemplo, com a gênese do rock’n’roll, roubando a forma artística inovadora que começou com negritude nas veias nas figuras de Chuck Berry e Sister Rosetta Tharpe, e que foi embranquecido para se tornar mais vendável e palatável – ou seja, a invenção de Elvis Presley como Rei do Rock encobre um processo racista de des-empretecer o rock.
Em “Ain’t No New Thing”, o racismo é explicitado pelo poeta-cantor inclusive com a lembrança da trágica agonia de Bessie Smith, uma das mais expressivas e talentosas cantoras de blues de todos os tempos, que faleceu após um acidente de carro pois não recebeu atendimento médico em hospitais que eram apenas para branquelos:
https://www.youtube.com/watch?v=m04bNgJXTdo
[Gil Scott-Heron] We’d like to go into a thing called, um, “Ain’t No New Thing.” It’s, um, based on, um, the fact that white people continue to rip off black artists. They continue to, um, um, steal their material, their styles, the very cultural elements that make the black artist the outstanding artist, the master of music that he has been. Um, and it ain’t no new thing, to tell the truth, that these things are going on. We point out, very expressly, the fact that, um… Stanley Crouch comments on his album Ain’t No Ambulances for No Nigguhs Tonight that, uh, Chuck Berry was doing, like, a very heavy thing, a very rock and roll thing—the king of rock and roll as a matter of fact. But, um, like, white people couldn’t dig having their daughters go to no shows and cream over no black man wiggling on the stage, so, consequently, they invented Elvis Presley and let him do it. So we wanna get into that, call it “Ain’t No New Thing,” and talk about some people…
…then there was sweet Bessie Smith,
Laying on the blood-soaked backseat
Of that broken-down jalopy
With a tattered quilt
Wrapped around her shoulders
Waiting for someone to come to her aid
On a rainy Mississippi night
While a white hospital would not accept her
Right across the street
Ain’t no new thing!..
Publicado em: 21/08/25
De autoria:
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia